Um monólogo memorial.

 

Sabe, eu as vezes penso nas pessoas que não ficaram, mas deixaram os seus ecos.


Pequenos assombros, suaves, persistentes… Eles não gritam, não exigem, não batem à porta. Só surgem. Preenchendo aquilo que não tem forma, e  por definição, nunca se preenche. O tal vazio. Engraçado como ele sempre arranja novas formas de existir. Tem dias que vem como suspiro. Em outros, um frio na espinha. Um foguete lançado sem aviso mas que logo encontra seu fim no domo.

E então lá estão eles: os gestos premeditados que eu não vi se despedindo, os olhares que não prometeram retorno, os sorrisos que pareciam eternos (e deixaram de ser).

Tudo parece novo, mas não são. Têm charme. Mas também têm garras afiadas.

Cruéis, talvez, porque sabem que não precisam pedir licença. Eles voltam. Quietos. Vivos. Sempre voltando. Disformes.

E eu? Eu achava que esquecer era uma decisão. Que bastava querer… Mas não me desprendo. Porque há beleza nisso também. Um ciclo de constante autodefesa. Nessa nostalgia que se instala feito planta em vaso antigo. Cresce torta, mas ainda floresce.


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