No Balcão da sorte!

 

João entrou esbaforido, movido pela urgência de quem carrega o peso das esperanças penduradas nos olhos. — Você faz currículo aqui? — perguntou com a voz ainda acelerada. — Sim! — respondi. — Quero fazer um! — disse, com firmeza que dispensava rodeios.

Durante a conversa, João revelou uma história feita de concreto e tijolo: anos de experiência na construção civil, anotados com dignidade em sua Carteira de Trabalho — como medalhas de uma batalha incansável e silenciosa. Imigrante de outro estado, trazia na bagagem mais do que ferramentas: havia maturidade estampada na cerviz e sabedoria que não se aprende em cursos técnicos.

Após finalizarmos o documento, perguntei se ele tinha algum lugar em mente para entregar o currículo. Ele disse que não. Precisava trabalhar — e só isso bastava.

Naquele momento, lembrei de uma conversa que havia acabado de ouvir. Outro rapaz, em situação parecida, que havia ganhado uma indicação espontânea: “Vá naquele lugar e diga que o Bruno te mandou.” Um lampejo me atravessou; talvez João também pudesse se beneficiar desta possibilidade. Apontei o lugar: era logo ali.

— Olha, não sei se vai funcionar… mas não custa tentar — adverti, com o cuidado de quem sugere esperança que precisava ser moldada para não construir frustrações.

Cerca de uma hora depois, João voltou. Os olhos brilhavam como quem tinha reencontrado o sol. O moço não só recebera seu currículo, como o lera ali mesmo. Pediu que voltasse na segunda-feira com os documentos. João me abraçou com gratidão rara — aquela que tem peso de recomeço. Como o olhar de uma mãe que reencontra o filho perdido.

Reflexão: No lugar certo na hora certa? 

A história de João me fez pensar na alquimia dos encontros. Às vezes, o que transforma uma vida não é um planejamento meticuloso, um currículo perfeito ou uma oportunidade de ouro. É estar no balcão certo, na hora exata, diante da pessoa que tem uma palavra, um gesto, uma ponte.

No fundo, talvez o universo funcione como uma obra em andamento — cada um com sua função, sua etapa, sua chance de encaixe. E quando as peças se alinham, não é sorte: é sincronia.

Que tenhamos sensibilidade para reconhecer quando somos o ponto de apoio na história de alguém. E humildade para aceitar que, às vezes, somos nós quem precisamos daquela indicação generosa, meio casual, meio divina.


Comentários

Postagens mais visitadas