A Sandália da Rainha Suprema (Para regras e bons constumes)
Minha mãe atirou uma sandália de marca duvidosa e, com precisão cirúrgica, acertou o alvo: minhas costelas. Ela chegou atravessando o ar como uma flecha bem direcionada, rasgando o vento e encontrando descanso no meu corpo.
A dor era seca, direta — como se algo tivesse colidido e se alojado ali, bem aos meus pés. E diante da sandália, você olha e deseja quebrá-la, colocar fogo, pisar sem dó… mas é a sandália da sua rainha. E agora?
Nada que uma “mãe raiz” faça vem sem um cálculo prévio sobre como piorar a situação. A minha já se posicionava como uma abelha rainha: de postura firme, acolhedora e, por vezes, assustadora. Esta era a figura que mais temíamos. Por isso, nesses momentos em que tamanho, inteligência e medo se misturavam dentro de mim, após o impacto, lá estava eu — de mãos elevadas e corpo semialtivo, em postura quase genuflexa — devolvendo à minha algoz a sandália mais odiada e, paradoxalmente, invejada.
Minha mãe tinha uma lógica implacável de organização familiar. Suas regras eram simples e eficazes: “Me ajude a não me aborrecer com você.” Simples assim. Sempre que algo curioso surgia, a primeira coisa em que eu pensava era na regra-mor: evitar o aborrecimento da rainha-mãe.
Curioso é que as mães dos meus amigos também seguiam essa cartilha. Teria sido um clube fechado? Uma sociedade secreta de mães linha-dura? Talvez…
Na nossa rua, os meninos de comportamento duvidoso, ao verem alguma infração cometida por um colega, já disparavam: “Vish! Vai apanhar! Sua mãe vai te bater.”
A lógica era clara: aquilo que acabara de ser feito violava os bons costumes da vizinhança. O mais engraçado? Mesmo testemunhando a punição alheia, em seguida, algum de nós faria exatamente o mesmo. Que loucura!
Conviver com as regras da minha mãe era como peticionar um pedido ao juiz de primeira instância. Mas se o caso fosse grave o suficiente para chegar às mãos do meu pai… aí sim, a punição era severa.
Nos anos 70, na nossa rua, todos se comportavam como parte da nossa família — e nós, da deles. Jamais desrespeitávamos os pais dos nossos amigos, nem o contrário acontecia. Havia uma linha invisível e poderosa dizendo: “Não ultrapasse.” E nós obedecíamos.
Outro preceito inegociável: não aborrecer as meninas. Claro, havia os atritos normais do dia a dia — discussões bobas entre meninos e meninas que logo eram resolvidas pelos pais. Mas nada que fosse terrível ou abominável acontecia.
E com tantos parênteses vividos, levamos essas experiências para a vida adulta. O mais surpreendente: encontramos tantos outros que foram educados com esse mesmo princípio de respeito e deferência.
Anos assustadores, mas também lindamente formadores. Nos deixaram com o “couro grosso” e uma atitude primitiva de sobrevivência acolhedora e respeitável.
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