Cartas de domingo.
Todo domingo tinha um propósito especial: era dia de escrever cartas. Meu pai, com aquele tom simpático e orgulhoso, anunciava para os amigos e vizinhos:
— Amanhã meu filho vai escrever uma carta para o pai do Seu Messias.
— Sim, senhor! — eu respondia sem titubear.
Não era apenas o Seu Messias que aparecia no nosso portão batendo palmas. Sempre vinha acompanhado de seu irmão, o risonho e meio traquina Seu Francisco. Homem de fala animada, casado com Dona Raimunda e pai de seis filhos, tinha um hábito meio rude — beliscar-me por puro afeto travesso. Eu, meio assustado, recebia seus gestos com mistura de temor e carinho. Aqueles homens rústicos, do tipo que brincam com força, eram parte do cenário familiar. E na nossa dinâmica, isso era absolutamente normal.
Seu Messias veio do Ceará com um saco cheio de esperanças e os filhos Neto, Ulisses, Antônio, além de umas três ou quatro filhas, cujo número exato minha memória já embaçou. Histórias como essa eram comuns. Meu pai também havia deixado sua cidade natal em busca de trabalho e aprendizado, atravessando estados e fronteiras internas para construir uma vida.
Eu me tornava, ali, o elo entre mundos: traduzia sentimentos e recados em forma escrita. A carta começava sempre igual:
“Local, dia, data. A bênção, meu pai! Espero que o senhor esteja bem. A bênção, minha mãe!”
A expressão de Seu Messias se transformava aos poucos. Havia saudade em seus olhos, tristeza contida; mas também uma paz que surgia conforme ele falava sobre os parentes distantes, os amigos que também haviam se aventurado pela migração.
Eu escrevia com atenção, respeitando cada palavra que ele ditava. Meu pai ficava visivelmente orgulhoso: via ali seu filho, dedicado, tranquilo, fazendo algo pelos outros. Era seu esforço por minha educação dando frutos. E eu gostava da tarefa, mesmo sabendo que para cumpri-la, deixava de brincar, de correr no quintal.
Minha letra era redonda, clara, passava primeiro a lápis e depois ganhava forma definitiva na caneta — com exceção de um ou outro “f” e “s” teimosos. O endereço sempre encerrava a missão:
Rua das Flores, número 1277, Fortaleza.
Sim, isso ficou gravado em mim. Fiz tantas vezes que virou memória muscular.
Anos depois, assisti ao filme “Central do Brasil” e me vi ali, na figura da professora escrevendo cartas para desconhecidos. Senti orgulho. Porque aquilo que parecia simples, na verdade, carrega uma dose imensa de humanidade.
Nota de autor
Naqueles domingos, eu abria mão da bicicleta, das travessuras com os amiguinhos, dos jogos improvisados, para ser útil a alguém mais velho, deslocado, saudoso. E o curioso é que nunca me pareceu sacrifício. Era natural. Talvez eu tenha começado a entender cedo que as pessoas simples ( os que não dominam letras, que carregam saudades, que se movimentam por esperança) precisam de acolhimento.
Escrever cartas era isso: um ato de cuidado. Um gesto de escuta. Um espaço de presença.
Se eu tivesse que colocar isso num currículo, talvez não entendam o valor. Mas dentro de mim, esse é o tipo de experiência que molda quem a gente é; e que me ensinou, desde criança, que estar disponível para alguém pode ser a brincadeira mais séria e mais bonita que existe.
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