A sandália que matou o pardal nos peitos.

 

O sol estava alto, mas sobre nossas cabeças assava cada pensamento . ELe quase brigava com o céu para ver quem brilhava mais. Eu e meus quatro amiguinhos de perambuleios andávamos entre os entulhos perto do hospital, caçando restos de cobre com a fome que não era fome; era gula travestida de conquista. O plano era simples: achar algo valioso, vender, e virar rei por uma tarde com um refrigerante e pães de queijo. Nada tão refinado, mas naturalmente nosso.

A esperança veio conosco, mas foi ficando pelo caminho, entre entulhos vazios e pregos enferrujados. Outros moleques tinham chegado antes, talvez com a mesma ideia, e só nos restava um pacto: da próxima vez, viríamos mais cedo e antes do sol acordar.

No caminho de volta, surgiram os estilingues. Instrumentos de coragem e alguma ousadia. Diante do Senai, numa árvore generosa, três passarinhos repousavam. Dois fugiram com o barulho dos nossos passos. O terceiro permaneceu. Destemido ou apenas distraído pela beleza da tarde, confiando que haveria alguma bondade dos meus amigos.

Enquanto meus amigos se posicionavam, algo me despertou. Não queria ver aquele bichinho como alvo; queria que ele virasse um raio e saisse dali. Minha mão agiu antes do juízo e lancei minha sandália com força, querendo assusta-lo. Mas acertei. Bem nos peitos. E ele caiu morto.

Em casa, a tristeza veio com a força de quem não tem freio. Meu pai ouvia Roberto Carlos, como sempre, quando me viu chorando. Seu olhar foi direto, mas cuidadoso:

— O que foi isso, meu filho? Por que você está chorando?                                                                 — Pai... eu matei o passarinho.

Expliquei entre soluços. Meu pai ouviu, suspirou fundo, e me respondeu com uma calma que só quem viveu outras experiências entende:

— Na roça, meu filho, matar passarinho era comum. A gente fazia isso pra comer. Na casa do seu avô, matávamos pra sobreviver. Não era crueldade, era costume. Você não quis matar, você quis proteger. E isso já é bonito demais. Fique tranquilo e acabe com essa besteira!

Ali percebi que o mundo não é do tamanho da nossa rua. Que a mesma vida pode ter significados diferentes, dependendo da fome, do chão, das histórias. E que o que nos separa nem sempre nos afasta. Porque mesmo meu pai, com mãos acostumadas as exigencias da vida, entendeu minha dor. E me ensinou que nem todo gesto é cruel;  às vezes é só sobrevivência.

Naquele dia, o passarinho virou uma balança, entre o menino que chorava e o homem que um dia foi menino também.


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