O Rottweller de olhar cortante.
A solidão é algo que causa estranheza em quem tem que conviver com ela. Muitas coisas acontecem nos espaços vazios da casa. Despertam sensações que vão se misturando à tristeza. Frustração. O ser humano é feito de encontros e de grupos para dividir suas conquistas e melhorar seu conforto. Naqueles dias a solidão se sentava comigo no sofá.
Foi pensando assim, que passei a ver minha casa como um grande espaço vazio. As coisas habituais não me preenchiam mais. Todos os filmes os quais eu me dignava em assistir, tinha em meio a roteiros de suspense, dramas, terror, documentários, aventuras, a presença de um mascote que trazia equilíbrio ao local. Algo que pudesse aquecer dias frios e renovar o amor pelo exercício diário do carinho.
Eu não tinha nada que se parecesse com um mascote e, logo, meu mundo doméstico estava vazio e eu, sem aplicar em mim velhas sensações de alegria, brincadeiras e cuidados.
Involuntariamente passei a externar as pessoas que me conheciam essa vontade de ser dono de um animal. Estava disposto a experimentar quaisquer possibilidades que me surgissem: peixinho no aquário, mas não! Deixar o bichinho sozinho ali no vidro sem rumo. Não iria gostar se fosse comigo. Um gato? Talvez, são independentes demais, somem e depois voltam daquele jeito… Coelho… não!
Cachorro? Sim, mas de qual tipo?
De todo modo essa vontade foi compartilhada com algumas pessoas e uma colega de trabalho me perguntou se eu não queria um pit bull? Hummmm… gostei! Quem sabe um cachorro desse porte para exercitar instintos primitivos e poder exercitá-lo com treinamentos mais rústicos. Passear de coleira pela rua com um novo amigo.
Fomos eu e um amigo numa cidade do Goiás para buscar o bruto. Longe. Mas não me fiz de rogado. Na casa havia logo na entrada 3 cachorros grandes. Eu desci do carro e me posicionei em frente a casa que não dispunha de grade para separar com segurança um trio de feras iguais aquelas do mundo urbano. Fiquei por ali, meu amigo me olhou e também desceu do carro. Minha amiga veio ao nosso encontro e logo apareceu um rottweiler gigante preto, típico daqueles filmes de sentinelas. Cara de poucos amigos e olhar cortante.
De repente meu olhar do nada cruzou com o olhar dele e fiquei petrificado encarando a besta. Num rompante explosivo e determinado, ele pulou em minha direção rosnando e tracionando suas patas dianteiras, meu coração parou e nada pode me mover, sequer o instinto de sobrevivência. — Hulk! Parado! O grito de comando da minha amiga foi forte e de uma convicção ímpar. O monstro tinha nome de aberração, mas era obediente e servil. Parou! Meus olhos passaram a ver o mundo à minha volta.
— Ele nunca foi assim com ninguém. Ainda buscando ar e me reorganizando retruquei:
— Eu sabia que isso poderia acontecer.
— Como assim?
— Cachorro não se dá bem com gato! Encerrei entre risos e desconforto nas pernas.
A confiança que colocamos nos animais é natural e às vezes, até romântica. Imaginamos que eles “sentem” as boas intenções e que jamais atacariam alguém que chega em paz. Mas instinto não lê intenção. E todo afeto vem acompanhado de responsabilidade. Amar um animal é também respeitar sua natureza, seus limites e saber que até a amizade mais leal exige cuidado e respeito às regras de convivência com os outros.
Afinal, todo Hulk precisa de uma voz firme para lembrá-lo que, apesar da força, é o afeto quem deve guiar os passos.
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