Minha mãe, o guarda-roupas, a mochila e o bilhete.
Meu dia começou com os gritos expontaneos da minha mãe!
— "Edson, levantaaaaaa! Já são 6h! Vai arrumar a cama e tomar seu café! Depois trate de arrumar seu guarda-roupas. Quero ele limpo e arrumado!"
Minha mãe tinha esse charme que dizia ter herdado da mãe dela. Sempre repetia que, “naquele tempo”, criança acordava às 4h da manhã pra ajudar os pais a ordenhar o leite da vaca. A diferença é que nós não temos vacas. Compramos o leite na padaria no dia anterior. E sim, temos geladeira.
Uma vez, eu ousei apontar isso. Resultado: ganhei uma lição tão “calorosa” que até hoje o lado das minhas costas lembra daquele argumento. Por aqui, o pessoal chama a minha mãe de “mãe raiz”. Não só a minha — todas as mães da rua são assim: bravas por fora, ternura disfarçada por dentro.
Vamos levantar. E parar de pensar no casamento da viúva que minha mãe já está rosnando lá na cozinha.
Depois do café, foquei na tal arrumação do guarda-roupas. E vamos combinar: já fazia tempo que ele pedia socorro. Portas abertas, encarei o desafio. Comecei tirando aquele amontoado de roupas limpas e amarrotadas — honestamente, nem sei como chegaram a esse estado. Mas, se perguntar pra minha mãe, ela vai responder sem pestanejar.
Camisetas em cima de calças, shorts misturados com meias desaparecidas… E olha só: achei o par da minha meia branca! Aquela que estava sumida há séculos. Bom demais!
Continuei no embalo, até que… Espere. O que é isso?
Não acredito. Minha mochila da quinta série? Como assim? Que surpresa boa!
Me sentei no chão, segurando aquilo como quem segura um pedaço do passado. A alça estava meio gasta. O zíper, com a mesma falha crônica de sempre. Eu conhecia aquele defeito — foi numa brincadeira de pique-pega, quando a menina mais linda da sala puxou com força... e o zíper nunca mais foi o mesmo. Aquilo me arrancou um sorriso besta.
Abri a mochila devagar, como se fosse um tesouro. Lá estava ela: a lapiseira 0.5mm azul que meu pai me deu. Uma Pentel! Lembro até hoje do brilho nos olhos dos meus amigos quando viram aquilo. “Caraca, olha a lapiseira do Edson!”
Continuei revirando. Um papel dobrado? Um bilhete?
Meus dedos congelaram por um segundo. Desdobrei com cuidado, como se fosse feito de porcelana. Letras redondinhas, caneta azul falhando no final. A frase era simples, mas mexeu comigo mais do que eu queria admitir:
“Gosto de você.”
Nunca soube quem escreveu. Foi na festa junina da escola que aquele bilhete apareceu do nada, escondido no estojo.
Me deu um riso meio bobo, meio saudoso. Será que foi... ela? A que dividia o lanche enrolado em papel alumínio? Ou aquela que me emprestava o lápis grafite cheirando a tutti-frutti? Vai saber.
Naquele instante, com as roupas ainda espalhadas e a arrumação esquecida, percebi que aquela mochila não carregava só objetos. Ela guardava uma versão minha que eu nem lembrava mais — leve, boba, vibrante nas pequenas coisas.
Fechei o zíper torto com cuidado. Levantei e coloquei a mochila em cima da cadeira.
- "Edson, já terminou esse guarda-roupa?" - gritou minha mãe da cozinha, já com aquele tom impaciente.
Respirei fundo. Olhei a bagunça no chão, olhei de novo pra mochila e respondi:
— Ainda não, mãe… mas encontrei uma parte de mim aqui dentro.
E, por algum motivo, isso me fez sentir tudo um pouquinho mais arrumado.
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