AP TCHAGUI - Chute frontal
Segundas, quartas e sextas, às 19h em ponto. Era sagrado. A gente se encontrava na Academia do Mestre Éder, ali na QNA. O letreiro dizia “Judô”, mas o que rolava mesmo era Tae Kwon Do; o caminho espiritual dos pés e das mãos, como gostava de repetir o professor, com aquele ar meio zen, meio sargento.
A turma era um mosaico: colegas de escola, amigos de quadra, conhecidos do trabalho. Cada um com sua motivação — uns queriam aprender a se defender, outros só não queriam mais se sentir vulneráveis. Ninguém ali sonhava em virar Bruce Lee. Faltava tempo, dedicação, talvez talento. Mas disposição? Ah, isso a gente tinha de sobra.
Numa dessas aulas, depois de semanas de fundamentos, o professor nos deu um pouco de liberdade. E como toda liberdade mal interpretada, virou bagunça. Alguém (no caso, eu) teve a brilhante ideia de propor um treino livre. Mas não qualquer treino. Um com aposta.
- Valendo o quê? - perguntou o professor, com aquele olhar de quem já sabia que ia dar ruim.
- Quem tomar o primeiro chute na cabeça raspa o cabelo na zero! - soltei, debochado e criativo como sempre.
Ninguém discordou. Ninguém pensou duas vezes. O professor só deu de ombros e organizou o Kyorugui. Lutadores perfilados, ele anunciou com firmeza: - Shijak!
Começou. Todo mundo meio travado, intimidado pela presença do mestre, que assistia como quem assiste a um reality show de artes marciais. Chutes baixos, avanços tímidos, recuos estratégicos. Nada de ousadia.
Até que chegou minha vez. Eu contra o Edmilson. Vai pra lá, vem pra cá, um chute no vazio, outro no vento... e então, do nada, um contra-ataque certeiro. Bem no meio da minha cabeça. Silêncio. Depois, gargalhadas. O professor só fez aquela cara de “vocês que inventaram essa regra, não me envolvam”.
Às 21h, lá estava eu, derrotado e resignado, sentado na cadeira giratória da última barbearia aberta. - Qual corte? - perguntou o barbeiro. - Zero. Em tudo. - respondi, com a dignidade de quem já não tinha mais nada a perder.
Saí de lá com a cabeça brilhando e a autoestima enterrada no subsolo. Cheguei em casa. Meu pai, com aquele olhar entre o riso e a preocupação: - O que houve? - Perdi uma luta, pai. Vou ver minha namorada.
Toquei a campainha. Ela abriu a porta. Olhar de espanto. - O que foi isso? - Meu bem, quando você fizer uma mudança dessas, me avisa, pra eu não tomar um susto!
Não sei se foi o impacto visual ou só o costume que veio depois, mas o fato é que o corte ficou tão bom que, trinta anos depois, ele ainda está aqui comigo. E o chute na cabeça? Esse virou história; daquelas que a gente conta rindo, mas com um fundinho de orgulho ferido.
Comentários
Postar um comentário