A vez que perdi meu Dom Pedro II

Sair falando sobre as coisas boas as vezes custa caro!

Minha mãe me chamou aos gritos (como fazem as mães com pressa), querendo algo nas mãos antes que o mundo desabe. — Vai lá na padaria e me traga 10 pães e um leite (litro). — Sim, senhora.

Saí correndo, como faziam os meninos da minha época: sempre com pressa, sempre com medo do atraso e suas consequências. A rua estava viva. O piado dos pássaros misturava-se ao burburinho das pessoas indo e vindo, cada uma com um destino estampado no rosto. Um cachorro se aquecia ao sol, outro olhava os humanos como quem tenta decifrar um mistério antigo.

Na padaria, pedi os pães e o leite. Como de costume, estavam quentinhos. Minha mãe sabia o horário exato da fornada; a atendente chamava assim, “fornada de pães”, e eu me alegrava com a quentura, como quem recebe um presente. Belisquei o miolo, claro. Depois, com a esperteza de quem já conhece as regras da casa, empurrei os pães beliscados para o fundo do saco. Era minha estratégia para evitar que minha mãe descobrisse e a paz doméstica virasse poeira.

No caminho de volta, o vento trouxe algo se arrastando pelo chão. Me chamou a atenção. Acelerei os passos, como quem foge de um carro prestes a espirrar lama. Me inclinei e lá estava ele: Dom Pedro, em tom rosa escuro (que depois descobri ser vinho) estampado numa nota de 10 cruzeiros. No chão. Sozinha. Toda minha.

Fiquei feliz demais. Bota feliz nisso! Tão feliz que comecei a contar pra todo mundo: — Moça, acabei de achar 10 cruzeiros! — Moço, acabei de achar 10 cruzeiros!

Foi gente, viu? Se eu tivesse um megafone, não teria alcançado tanta audiência. Cheguei em casa e fui logo anunciando: — Mãe, achei 10 cruzeiros! Vou comprar biscoitos e doces! Mãe, 10 cruzeiros só meu!

Minha mãe, com a calma de quem já viu muita coisa, mandou eu respirar. Trouxe os formulários dignos de CSI (ou Ciaisái, como ela dizia) e começou o interrogatório: — Onde você achou esse dinheiro? Como achou? Quem estava com você? Por onde passou quando achou?

Respondi tudo na risca, sem gaguejar. Mas minha mãe, com aquele olhar que mistura sabedoria e radar de mãe, confiscou a nota. Sabia que, pelo alarde, o dono logo apareceria, e apareceu.

Na porta, um rapaz um pouco mais velho que eu chorava. Ao lado, sua mãe contava que havia lhe dado os 10 cruzeiros pela manhã para comprar pães e remédio na farmácia. Minha mãe ouviu tudo com serenidade. E eu, já resignado, vi meu Pedrinho partir nas mãos da mãe do menino, que se afastava agradecendo, com os olhos cheios de lágrimas e gratidão.

— Quando uma coisa não é nossa, a gente devolve para o dono, meu filho — disse minha mãe, com firmeza e ternura.

Humm... devolve?! Poxa! Meu Pedrinho novinho... Dava pra comprar tantas balinhas, doces, refrigerantes e, com sorte, até uns pãezinhos de queijo.

Mas uma coisa a gente aprende nessas situações que o destino entrega embrulhadas em papel de lição: Sempre que algo lhe vier às mãos e for motivo de muita felicidade... não faça planos.

Primeiro, aprenda a ficar de boca calada.


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