Que coach que nada; vai que dá!
Estar no lugar errado na hora errada pode ser muito mais perigoso do que engraçado. Mas estar no lugar certo, mesmo sem saber, pode mudar tudo — especialmente quando se é jovem e está tentando entender o mundo.
Na minha rua, os meninos mais velhos — uns quatro ou cinco anos à frente da gente, os “pirralhos” — já estavam mergulhados nas novidades culturais que o mundo oferecia. Enquanto todos disputavam os mesmos espaços do bairro, era comum ver os moradores juntos nas festas, nas missas, nas escolas. A vida acontecia em comunidade.
Os campeonatos de golzinho eram o auge. A quadra da rua 10 e a nossa, a da 08, eram palco de verdadeiros espetáculos. Nas outras ruas, só tinha “perna de pau”. Os nossos caras grandes dominavam os dribles mais insanos. Era divertido torcer por eles — às vezes sobrava refrigerante pra gente. Não era muito, mas a gente se divertia à pampas.
Esses caras grandes eram nossos ídolos. Tinham o dom de se aproximar das meninas, e a gente ficava ali, fascinados, tentando entender como eles conseguiam. Teixeira era um deles. Não morava na nossa rua, mas tinha conquistado a simpatia geral. Era amigo dos caras grandes e, por isso, tinha passe livre entre nós.
Um dia, resolvemos perguntar: — Teixeira, como você faz pra chegar nas meninas? — É fácil. Basta “dar o papo”. — Mas que papo?
Ele, com aquele ar de superioridade que só os adolescentes sabem fingir bem, se gabou e disse: — Assim!
Naquele exato momento, Vera apareceu. Morena clara, olhos esverdeados. Teixeira a chamou, falou com ela por míseros segundos e, inacreditavelmente, ela lhe deu um beijo. Na boca. Demorado. Com direito à mão na nuca e carinho nos cabelos. Ali, na nossa frente. Teixeira virou nosso Don Juan. Nosso mestre.
— O que você disse pra ela? — Só perguntei: “Vamos trocar uma ideia?”
A gente ficou em choque. Só isso? Sério? E ele, com os olhos vidrados, acompanhava o caminhar da morena como quem contempla uma obra de arte.
Mas, na real, nenhum de nós conseguiu aplicar aquela “técnica”. Cada um enfrentou seus desafios à sua maneira. Eu, por exemplo, tímido até a alma, tive meu primeiro beijo de forma totalmente inusitada — longe dos traquejos e fórmulas mágicas.
Foi numa lanchonete, esperando nosso combo de hambúrguer e batatas. Duas amigas do meu amigo se sentaram conosco. Uma delas começou a me olhar de um jeito estranho. Um olhar parecido com o que Vera tinha dado ao Teixeira. Igualzinho.
Eu não sabia o que fazer. Então, num impulso meio bobo, comecei a colocar o canudo do meu refrigerante no copo dela. Três canudos. Fui quebrando um a um. A distância entre nós diminuía à medida que o canudo encurtava. Dois, depois um, depois metade… até que só restava um pedacinho. E então, o beijo.
Foi espontâneo. Foi real. E foi meu.
Antes disso, minha única experiência tinha sido num jogo de rua chamado “Salada de frutas”. Um desastre. A menina se chamava Linda — e era linda mesmo. Uns cinco anos mais velha. Meu amigo ficou embasbacado com minha abordagem na lanchonete. Acho que ele nutria uma paixão secreta por ela.
Hoje, olhando pra trás, percebo que não existem regras pra conquistar alguém. Não adianta decorar frases prontas ou imitar os “caras grandes”. O que funciona é a criatividade sadia, o respeito, e a coragem de aproveitar o momento consciente das suas consequências; porque ele pode ser único.
A vida não é feita de fórmulas. É feita de histórias. E essa foi uma das minhas.
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