A trégua e o silêncio adormecido

 No quintal havia um balanço. E era onde eu passava horas depois da escola, voando com as pernas esticadas para o céu e o pensamento livre, como só uma criança consegue fazer.

Foi ali, entre uma brincadeira e outra, que o silêncio começou a contar uma história que ninguém teve a coragem e o cuidado de me contar.

Minha mãe se foi quando eu tinha sete anos. Não houve conversa , nem abraço, nem palavras suaves tentando vestir a dor com empatia.  Apenas a ausência. Uma ausência que não bateu à porta, apenas se instalou na casa, no café  da manhã, no cheiro das roupas, nos cuidados que antes vinham dela.

Soube da sua morte como quem entra em cena sem ensaio.  Estávamos no sofá, minha irmã olhou pra mim e disse, como quem ensina uma etiqueta sobre o luto. “Quando uma pessoa morre, a gente não fica brincando no balanço.” Aquilo me calou. Me ergui devagar e segui. O tempo passou, mas foi como se eu continuasse ali, sentado no sofá, ouvindo aquela frase com gosto de rompimento, com cor de abismo.

As mães dos meus amigos tentaram preencher esse espaço. Algumas, por pena ou gentileza, me deram pequenos privilégios; não brigavam tanto, não corriam para contar para o meu pai quando eu aprontava. Mas essa trégua durou pouco. Criança se adapta, percebe brechas e aprende a crescer onde os outros acham que há ruínas suficientes para ela não se mover.

E assim eu cresci. Brincando, correndo, rindo. O trauma não deixava de existir, apenas estava adormecido. Dormia fundo, escondido entre guloseimas, e deveres de casa, esperando o momento certo para acordar.

Na 5ª série, a professora de português, Doris Beatriz pediu que escrevêssemos uma composição. Foi aí, com papel, lápis e lembranças, que o silêncio antigo começou a se transformar em palavras.

A professora passou a entender de alguma forma porque eu me silenciava nas aulas. Ela se emocionou com o texto e indicou para o jornal do Complexo “C”. 

No dia da leitura , em sala, ele acordou.

Chorei como nunca antes. Os colegas se comoveram. E naquele momento pude entender o que era ser um filho sem mãe: é conviver com um tipo de vazio que ninguém descreve, ninguem imagina, mas que tudo transforma.



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