Malícia e o Super Arame Liso.

 Muitas coisas legais que a gente aprende no seio familiar,  podem ser desfeitas e mau interpretadas na convivencia com o mundo fora de casa.

É um mundo complexo (para não dizer difícil de interpretar ) quando você não tem malícia.

Na minha época, não tínhamos meios de comunicação em tempo real com outra pessoa além do telefone fixo. As informações chegavam devagar. E as amizades… ah, essas floresciam mesmo eram nas festas das casas dos moradores ou em espaços reservados para os jovens dançarem.

Esses encontros começavam às 16h — sagradamente. A juventude se reunia, e os convites chegavam em papéis impressos na máquina de mimiografo, aquela antiga. Cada folha parecia uma promessa dobrada em três.

Era o nosso jeito de ser “fora da curva”. Hoje as pessoas dizem com naturalidade: — Vamos na boate?

Naqueles tempos, isso era proibido. Boate era sinônimo de lugar inapropriado; coisa de adultos desviados dos preceitos da família. Para nós, o nome certo era Danceteria (podia ser na escola, salão de bairro, ou até na garagem de alguém) desde que fosse no horário de costume.

Wanderley era meu amigo de quadra. Morava no lote 26, filho do seu Pedro e da dona Benedita. Inteligente, criativo, e com aquele sorriso genuíno de quem já entendia mais da vida do que a idade permitia.

Foi quando a companhia telefônica lançou uma novidade: o Disque Amizade. Ligava-se para o número 1234 e caía num espaço coletivo, onde todo mundo podia conversar. Um tipo de rede social em corda de cobre.

Liguei, meio tímido. Fui recepcionado por algumas pessoas, e uma delas (uma moça) se interessou por mim. Meu pai não estava, então eu podia conversar à vontade. Conversa vai, conversa vem… ela quis me conhecer. Me conhecer.

Veja bem: estudante, ingênuo, sem sequer entender direito o peso da frase: — Quero te conhecer.

Foi aí que tive uma ideia. Hoje eu a chamo de: Super Arame Liso.

Encontrei Wanderley e expliquei tudo. Ele, mais experiente, pegou o número da menina e assumiu a dianteira. Era universitário. Tinha seu charme e seus atalhos.

Dias depois, soube que ele havia saído com ela. — Sério? — Sim — ele disse, tranquilo. — E como foi? — Meu amigo... você precisa crescer e entender o jogo.

Naquele momento, um mundo se fechou diante de mim — e outro começou a se abrir. Demorei para compreender que a malícia é o lubrificante que mantém certas engrenagens da vida em movimento. Uma bênção, desde que se saiba onde se está pisando. Ela pode ser sua amiga ou o tropeço silencioso de quem a deseja sem saber manuseá-la.

Quanto a mim... levei tempo pra entender. E, pra ser sincero, acho que até hoje não aprendi a jogar esse jogo com maestria.

Ouvi falar da tal Lei de Gérson, aquela que dizia que o ideal era levar vantagem em tudo. Mas hoje eu penso diferente.

A malícia ensina que a vida não pode ser medida só por essa régua. Ela ensina que nem sempre o esperto é o mais sábio, e que quem corre na frente, às vezes perde a paisagem.

Tradução de Super arame liso: Cerca, cerca e não pega nada!





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