Os monstros que inventamos, por não sabermos a verdade.
Na minha rua a gente era criança e mal sabia ao certo o que era e como era a vida das outras pessoas. Crescemos e viver uma experiência marcante que impacta, faz toda a diferença para se aprender a ter humanidade e respeito pelos outros.
Havia uma senhora exótica, daquelas que parecem personagens caricatas de histórias de bruxa. Para Véia Alice só lhe faltava a vassoura para completar o figurino. A gente tinha na cabeça que ela era uma daquelas entidades que se transformam em humanos e pronto, virava gente só pra assustar.
Ela sempre surgia à noite, parada no portão. Em frente à sua casa, havia uma árvore enorme que, nas noites bem escuras, nos causava um medo estranho, uma sensação absurda de que algo ali nos observava. E lá estava ela, fumando um cigarro cuja ponta brilhava um amarelo incandecente com bainha vermelha, como um olho aceso na total escuridão.
A gente morria de medo de brincar no quadradão, lá no fim da rua. Ficávamos na parte de cima da rua, assustados, esperando ela entrar pra cada um correr pra sua casa. Ninguém contava nada pros pais, era um risco certo de levar uma sova por “ficar aborrecendo os outros”. Certeza!
Véia Alice tinha uma amiga chamada Madalena, que lembrava um daqueles bonecos de jardim, tipo as estatuetas dos sete anões. Pronto, agora ela também virou Véia Madalena.
As duas tinham um jeito inexplicável de assustar a gente de noite, de dia, tanto faz. Bastava aparecerem que a gente já corria gritando, como se tivesse visto um monstro devorador. (Na boa, não era pra tanto.)
Diziam que pessoas mais velhas, quando se instalam em casas antigas e ficam por ali, indo e voltando na mesma rotina, acabam desaparecendo sem deixar rastros. Foi exatamente o que aconteceu com elas. Sumiram. Como se tivessem sido levadas por alguém... ou por alguma coisa. Ninguém sabia ao certo.
A gente só percebeu quando caminhões de aterro começaram a chegar, junto com homens de machado e motosserra. Eles cortaram todas as árvores do quintal. Inclusive aquela enorme, onde os morcegos faziam morada — talvez fosse por isso que sentíamos olhos nos observando. Vai saber.
Dona Madalena, pobrezinha, ao que parece não tinha filhos adultos que cuidassem dela. Mas tinha um pequeno, que ainda dependia dela pra tudo. Ela vivia juntando materiais na rua; qualquer coisa que pudesse vender no ferro-velho e que ajudasse a encher a panela com alguma comida.
Usava um vestido azul, da cor do céu, com flores amarelas e rosas. Talvez, no passado, ele a deixasse elegante e sofisticada pelas estampas. Mas agora, aos farrapos, sem bainha e desbotado, só reafirmava sua condição econômica. Ainda assim, dava pra notar que com ele, ela se sentia viva.
Dona Madalena tinha a pele branca, meio rosada — lembrava os tons das revistas, as bochechas da Branca de Neve. Cabelos castanhos claros. Não passava de um metro e cinquenta e cinco, certeza. Era bem gordinha, e a gente ria disso também. (Feio, né? Mas criança é cruel sem saber.)
Dona Alice era magrinha, com o rosto sempre cansado — um semblante esquadrinhado, como se a vida tivesse lhe tirado os contornos da esperança. Sem emprego fixo e já com idade avançada (ninguém sabia ao certo se ela era aposentada. A gente nem sabia que a gente se aposenta), fazia faxinas e cuidava de crianças. Talvez por isso tivesse aquele olhar perdido, como quem carrega o peso de muitas histórias que ninguém quis ouvir.
Ela tinha três filhos. Dois meninos e uma menina. Eles se revezavam em gritos e maus-tratos, e a gente, do lado de fora, nunca sabia quem era quem. Só ouvia os berros. Era como se a casa fosse um campo de batalha, e ela, uma sobrevivente silenciosa.
Um dos meninos, o mais velho, com jeito de garoto problema, certa vez me enforcou por causa de uma pipa. Ela tinha sido cortada no ar e caiu perto de mim. Eu peguei. Ele veio com tanta raiva que me faltou ar pra pedir ajuda. De sorte, um outro menino da rua (da turma dos “caras grandes”), gritou com ele, e ele me soltou. Isso só provou que era um covarde: só batia em quem era menor e mais fraco.
A gente não sabia o que se passava lá dentro. Só via o reflexo: gritos, violência, abandono. E talvez, por trás daquela figura que a gente chamava de “véia Alice”, houvesse uma mulher que só queria sobreviver. Mas ninguém perguntava. Ninguém queria saber.
Ela se foi. E ninguém mais falou nela. Seus filhos também sumiram. No lugar onde morava, ergueram uma casa de dois andares, estilo colonial, com uma garagem grande e plantas bem cuidadas; trabalho de paisagista, com certeza.
Seis anos se passaram. Eu tinha 19. Estava num terminal rodoviário, com um amigo de infância, quando o vi. Aquele mesmo filho da Véia Alice. O mesmo que, anos atrás, me enforcou por causa de uma pipa. Sem motivo, sem freio, sem compaixão.
Na hora, o sentimento veio como um soco: raiva. Raiva guardada, envelhecida, fermentada no silêncio. Olhei pro meu amigo e disse: - Não se mete. Que hoje eu vou passar aquela covardia a limpo.
Mas antes que qualquer coisa acontecesse, ele se aproximou. Magro. Magro demais. O rosto carregado e não só de tristeza, mas de uma dor que parecia morar ali há muito tempo. E então, com uma voz que não combinava com o passado, ele disse:
- Rapaz, como você cresceu! Tudo bem?
- Tudo bem. Respondi (com algum rigor).
Ele sorriu, um sorriso tímido, meio torto, como quem não sabe se merece gentileza. E continuou falando. Disse que sua mulher o havia abandonado. Levou os filhos para outro estado. Ele estava ali, tentando encontrá-los. Tentando juntar os pedaços.
Mandou lembranças pro meu pai. Falou com uma voz mansa, quase apagada. E enquanto ele falava, aquela vontade de bater nele, de devolver a covardia do passado, simplesmente passou.
Porque a vida já tinha batido nele. E continuava batendo.
Ali, diante de mim, não estava mais o garoto cruel que me enforcou. Estava um homem quebrado, tentando se manter de pé. E eu entendi que às vezes, o que a gente chama de “monstro” é só alguém que nunca teve chance de ser outra coisa.
Guardei isso até hoje, mas segui aprendendo que existe uma vida no silêncio de todas as coisas.
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