Em nome do amor e do cuidado.

 Desde que fui apresentado a um clube poliesportivo, me vi fascinado com tantas e tantas coisas que se poderia fazer e aprender naquele ambiente. Um local que tinha muitos esportes e por lá a gente que  sempre se limitava às fronteiras da nossa rua, aprendemos a ver mais uma parte  do mundo.

Piscinas de competição, quadras para esportes polivalentes, campos de futebol imensos e muitos brinquedos. Olha, coisa boa demais.

E tinham pessoas encarregadas de manter aquela engrenagem em movimento. Certa vez eu cheguei cedo para ir brincar na piscina, e os portões de acesso não estavam abertos, enquanto esperava ansioso para pular na água e ficar brincando de mergulhador  igual aos episódios de Jacques Cousteau, eu fiquei aguardando e quando me vi estava conversando com o moço da portaria. Ele era bem simpático com todos e naquela época eu contava com 12 anos. 

— Bom dia! Ele disse. — Bom dia. Eu respondi.

A conversa foi mais como um desabafo da parte dele que me pareceu triste, mas eu não conseguia identificar os motivos, tampouco entender o assunto. E era realmente isso, ele me contou que alguns rapazes mexeram com ele e ele teve de brigar com eles. Briga de gente grande quando perde a paciência um com o outro. Entretanto, não havia se machucado muito porque era praticante de arte marcial e tinha a faixa preta.

— Por que riram do senhor? — Indaguei.

— Você não entende, mas eu carrego uma cruz, muito pesada. — Falou ele de um jeito triste.

Eu fiquei pensando na posição do menino Jesus com uma cruz pesada em suas costas (era a única pessoa que eu conhecia que havia  carregado uma cruz), aprendi nas aulas da catequese com a professora Dona Rosângela.

Lá de fora da portaria, minha irmã mais velha estava passando e o viu conversando comigo e me chamou em tom de repreensão. Me levantei, me despedi e fui correndo para minha irmã. Ela ainda olhou firme para o moço e me mandou voltar para casa. Nem ponderei, minha irmã era bem convincente nessas ordens.

Não sei se ela quis me proteger por ser  um adulto e uma pessoa  estranha para nossa família; não sei se ela presumiu qualquer outra coisa, não sei o que foi… Minha irmã após o falecimento da minha mãe, assumiu seu  reinado de forma total, e para ela em todas as manhãs eu pedia a benção. E tinha nela minha protetora e orientadora.

Meus pais tinham uma herança que veio dos meus avós, e junto com ela, uma regra rígida: “Criança não deve se meter em conversas de adultos e tampouco passar entre eles.” Era assim na minha casa e na dos meus coleguinhas de rua. A gente acreditava, com a mesma certeza de que o sol nasce toda manhã, que se aquela regra fosse quebrada, algo ruim poderia acontecer. Por isso, agíamos com cuidado redobrado. Por outro lado, meus pais nunca me ensinaram como me comportar quando um adulto queria conversar comigo.

Meus pais recebiam vizinhos o tempo todo, em busca de boa conversa — como um clube seleto de celebridades locais, que vinham conferir a sabedoria de cada um diante dos problemas do país. Era época de regime militar, e fora de casa, as crianças se aplicavam em viver os valores que os pais ensinavam: moral, conduta, respeito. Tudo era simples e fácil — já tínhamos recebido todas as recomendações. E sempre procuramos nos comportar da forma que eles nos orientaram.

Minha Reflexão, Anos Depois:

Hoje, tantos anos depois, olho para aquele tempo com olhos diferentes. Na época, tudo parecia rígido, quase imutável — as regras, os silêncios, os limites impostos pelos adultos. Mas agora entendo que por trás de cada “não se meta”, havia um desejo profundo de proteção. Um medo do mundo lá fora, do que não se podia controlar, do que poderia ferir.

Meus pais, minha irmã, os vizinhos — todos lideravam com o que tinham: amor, preocupação, e sim, também com os medos que herdaram. Eles não sabiam tudo, mas tentavam nos guiar com firmeza. E mesmo quando essa liderança parecia dura, ela vinha de um lugar de cuidado.

Com o tempo, percebi que o respeito que nos era exigido não era apenas obediência cega. Era uma tentativa de nos ensinar a reconhecer limites, a entender que o mundo não gira só em torno dos nossos desejos. Mas também aprendi que o respeito precisa ser recíproco, e que proteger não é calar — é preparar para o desconhecido.

A cena com o porteiro, por exemplo, ficou comigo. Naquele momento, vi um pedaço do mundo que não cabia nas regras da casa. Vi dor, vi humanidade, vi algo que ninguém havia me explicado. E talvez por isso minha irmã tenha me puxado de volta — não por maldade, mas por medo de que eu visse demais, cedo demais ou que fosse tragado por alguma falsa bondade (Não tenho como saber!).

Hoje, entendo que a responsabilidade dos pais é algo  imenso. Não é só sobre mandar — é sobre formar, escutar, acolher. E que proteger os filhos não é mantê-los longe do mundo, mas ensiná-los a caminhar por ele com coragem, respeito e empatia. 

Essa é a herança que carrego: não apenas as regras, mas os questionamentos que elas despertaram. E é com essa consciência que escolho, agora, liderar com mais escuta, proteger com mais diálogo, respeitar com mais presença e a definir limites às pessoas mal intencionadas. Pessoas que vendem uma imagem acolhedora, compreensiva, mas que sabem contar uma mentira com o mesmo olhar que contam uma verdade.


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