Rex, o guardião do quintal.
"Em tempos onde a pressa ignora alguns afetos, conviver com os bichos nos lembra que há harmonia possível entre instinto e vida corrida. Rex não foi apenas um cachorro; foi companhia, foi sentinela, foi parte do nosso lar. Os animais, quando tratados com respeito e dignidade, devolvem em silêncio o que a gente às vezes não sabe nomear: segurança, presença, amor sem exigências. No quintal da minha infância, entre galinhas, jabuti e latidos tonitroantes, aprendi que cuidar bem dos bichos é, acima de tudo, cuidar bem da gente."
Lá em casa, o quintal era quase um reino e Rex, o cão, era o soberano absoluto. Um misto de pastor alemão e vira-lata de pelo "preto abismo" e focinho domesticado, carregava o sorriso daqueles que aprenderam a conviver com humanos, mas mantinha uma dignidade selvagem. Bastava um alerta qualquer para que assumisse postura firme e soltasse aquele rosnado de motosserra que fazia até as galinhas repensarem seus passos.
Sim, tínhamos galinhas. E galo. E gatos. E um jabuti, às vezes um pato que não durava muito, mas vá lá. Era fauna e flora convivendo em harmonia ou quase. Rex respeitava os bichos, salvo quando o tédio o levava a correr atrás das galinhas só para ver o escândalo, ou a dar um susto caprichado nos gatos. Eles olhavam de volta com aquele ar de indignação silenciosa, mas sabiam que desafiar Rex não era boa ideia. Ah, eles sabiam.
E as pipas? Ah, essas voavam livres no céu do nosso bairro de lotes imensos. Rex observava tudo com a calma de um velho sábio. Exceto quando alguma caía no pé de abacate e os meninos ousavam invadir seu território. Era então que o latido surgia, tonitroante como o rugido de um leão; imponente, firme, quase mitológico.
Rex era tudo: alarme, vigilante, terapeuta canino e fiel escudeiro. Cheirava nossos passos ao sair e ao voltar. Tinha uma ligação forte com meu pai, embora ele insistisse que o cachorro era meu. Não sei bem quem pertencia a quem nessa história, mas sei que eu adorava provocá-lo; passava a mão em seu rosto pra lá e pra cá, e, vez ou outra, ele “catava” minha mão num gesto firme, mas sem nunca morder. Nosso pacto silencioso.
No reino do quintal também vivia Pink, a pequenes meio caolha e heia de frescura, que mais parecia uma socialite exilada fora da sua bolha. “A dona Pink, a gente nunca sabe se tá olhando pro peixe ou pro gato”, dizia meu pai. Ela reinava no colo da minha irmã e só ali se sentia segura. As gatas não tinham paciência com ela e desciam o cacete sem cerimônia; e ela corria feito personagem de novela em busca de consolo... aos grunhidos de choro.
Apesar das tretas e pequenas confusões, havia harmonia. Um certo ritmo encantado que misturava bicho, gente, pomar e céu de pipa. E no centro disso tudo, Rex, nosso cão, nosso guarda, nosso bom amigo.
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