É apenas um laço, disseram.
Luzes acesas, mochilas nos ombros, cadernos, agasalhos. Cada criança em seu próprio mundo, mas todas sob a mesma missão: preparar-se antes do comando habitual do meu pai. A palavra sempre vinha seca, definitiva: - Vamos!
Naquele instante, o dia ganhava forma. Saíamos da casa, aguardando o ritual de meu pai trancando as portas. Um novo ciclo se iniciava.
A caminho da sala, notei meus cadarços desamarrados. Sentei no sofá e fui dar o laço. Suspirei profundamente. Ainda hoje consigo sentir aquele suspiro, como se o tempo parasse por alguns segundos só para mim. Puxei a ponta do cadarço do pé direito, dei o primeiro nó, cruzei as extremidades... Foi aí que olhei para o laço e ele me levou a ela: minha mãe.
Ela, que tantas vezes tentou me ensinar a arte simples de amarrar os cadarços, sem sucesso. E ali estava eu, sozinho, sem planejamento, com pressa, e o laço veio. Veio como quem visita sem avisar, trazendo lembrança boa e peito apertado. Queria que ela estivesse ali, vendo. Senti uma satisfação tímida, acompanhada de uma tristeza que não pediu licença.
Mas não houve tempo para contemplações. Meu pai, pontual como sempre, rasgou o momento com um: - VAMOS!!!
Fui. Com o gosto da lágrima ainda no canto do olho. Com o sorriso desfeito. Com a casa vazia e os hábitos reconfigurados - sem ela.
Hoje, entre corridas, compromissos e rotinas, ainda há um laço. Invisível. Um nó apertado que me une a ela. E ninguém vê. Mas dentro de mim, há uma avalanche que começa com o simples gesto de cruzar a ponta de dois cadarços.
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