Recanto da Família - Santo Estilingue.
Chegamos em grupo: dois casais, sorrisos abertos e a energia do amor eterno nos guiando. Olhos brilhantes refletiam o céu claro, pontuado por nuvens espaçadas. Mas o verdadeiro espetáculo estava no chão; um verde vivo, fragmentado em tons gradientes, embalado por uma brisa que fazia dançar as folhas das árvores.
O ambiente era preenchido por um sussurro natural: o vento resistindo aos galhos, como se as plantas cantassem juntas ao dobrar quase até o chão.
As cercas eram extensas, de madeira pintada com cal artesanal, e logo na entrada, uma placa quadrada anunciava com orgulho: Recanto da Família.
Fomos recebidos com sorrisos acolhedores. Crianças corriam e brincavam sem se incomodar com nossa chegada, enquanto galinhas iam e vinham beliscando tudo que pudesse enriquecer suas dietas. Patos, em bando, se refrescavam num açude modesto, feito com carinho pelos donos da casa.
Foi entre a casa grande e a varanda que a funcionária nos abordou: - Vocês gostam de patos?
- Eu gosto! - gritei, empolgado. - Quer pegar um no quintal?
- Posso! Respondi com a firmeza dos que não sabem no que estão se metendo.
Minha namorada me lançou um olhar clássico de desaprovação: "Por que você não aprende a ficar quieto?" - Deixa comigo. Respondi, como um herói em sua própria mente.
Fui ao quintal com a coragem de quem ignora o perigo. Me aproximei dos patos sem distinguir macho ou fêmea e só fui. Corri, saltei, mirei, agarrei… e ganhei um rasgo na palma da mão. Escarlate. Glorioso. Fracassado.
- Tem certeza? perguntou ela, com tom de juízo tardio.
Eu buscava explicações para minha derrota quando uma menina, talvez de seis ou oito anos, surgiu como um pequeno anjo camponês: - Tio, meu irmão tem um estilingue (acho que o nome dela era Izabel - Santa Izabel!).
Senti-me renascido. Recebi o “material bélico”, escolhi a melhor pedra e parti para a missão. Os patos, espertos, começaram a se afastar, indo rumo ao açude. Eu, na contramão, esticando a baladeira ao máximo, mirando, torcendo… Disparei!!!
Vupt! Poff!
Um pato esticou e remexeu uma das asas como quem dizia: - Fui eu. Você me acertou.
- Puts!!! Vai ser cagado assim lá longe! Ouvi ela dizer, balançando a cabeça.
Com o pato em mãos, o entreguei à caseira com ares de herói fantástico.
- Mas rapaz! Você é dos bons mesmo! Vamos comemorar?!
Minha namorada, é claro, só balançava a cabeça: "Bicho sortudo da peste."
Recebi como recompensa pela façanha, um copo generoso de pinga, 400 ml, no mínimo, retirado de um garrafão com a insígnia Sangue de Boi.
- Primeiro você. Disse a caseira, sorrindo e de olhos vítreos.
Sem cerimônias, virei o copo e bebi até a última gota.
- Você é dos meus!!! O copo era pra dividir com todo mundo!!!
- Meu Deus! — suspirou minha pequena.
Minutos depois, o mundo girava. Fiquei tonto, perdi o almoço e recebi um caldo reforçado. Dormi a tarde inteira. Perdi as atividades e é claro, vinha bronca por aí.
Ao acordar, mesmo antes de despertar por completo escutei a sentença final da sobre a minha caçada:
- Você nunca mais me venha com essa história de caçador de patos!
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