Tio Mário me ensinando o que o Rei Salomão ensinou para ele.

Meu tio Mário, nordestino de origem e carioca por adoção, era um homem de observações afiadas sobre o trato cotidiano. No Rio de Janeiro, enfrentou sustos e inseguranças, mas ao decifrar os códigos não ditos e os paradigmas urbanos, passou a se autoproclamar — com um sorriso largo e orgulhoso — “carioca da gema”.

Numa dessas visitas à minha casa, veio ver meu pai e, entre uma conversa e outra, me perguntou sobre os colegas da quadra. A maneira como abordou o tema das amizades e seus reflexos na vida me marcou. Até então, minha noção de convivência se resumia às aventuras com os amigos: quando algo parecia estranho, um de nós prontamente protegia o outro. Havia desentendimentos ocasionais, mas tudo se resolvia com naturalidade, como se a amizade tivesse um sistema imunológico próprio.

Expliquei que, para mim, bastava o bom trato mútuo. Como um selo de autenticidade, ainda contávamos com a amizade entre nossos pais, o que fortalecia os laços. Chamávamos uns aos outros pelos nomes; vez ou outra surgia um apelido, mas raramente prosperava. A vida seguia simples.

Foi então que, com sua calma erudita, meu tio me disse: “Ainda não chegou o tempo de separar o joio do trigo. Mas muito em breve, você vai precisar aprender a fazer isso.”

Confesso que só conhecia o trigo — por causa da farinha EMEGÊ que minha mãe usava para fazer bolinhos de chuva com canela e açúcar. Joio? Nunca tinha ouvido falar.

Pouco depois, ele se despediu com a promessa de nos receber no Rio. O tempo passou, e as palavras do meu tio se tornaram uma espécie de profecia. Na minha pré-adolescência, o mundo começou a se misturar de forma estranha. Os valores compartilhados na rua com os colegas e suas famílias foram se tornando confusos. Surgiram invejas gratuitas, competições vazias, desrespeito pelos gostos alheios — e isso sem sequer entrar nas questões ideológicas.

Tio Mário, mais uma vez, estava certo. Naquele trânsito cotidiano, ele me deu a chave para refletir sobre quem realmente era amigo e quem apenas ocupava espaço. A primeira grande frustração veio com um colega da quadra que abriu uma pequena empresa de serviços e me convidou para trabalhar com ele. À primeira vista, parecia uma oportunidade promissora, cheia de possibilidades de aprendizado técnico. Ele cuidava da gestão, e eu, como um escudeiro fiel, executava as tarefas de campo, acumulando experiência. Era fascinante.

Mas, como uma mina enterrada que explode sob o passo descuidado, a parceria revelou sua face traiçoeira. A decepção foi tão intensa que me lembrei da cena de Coração Valente, quando Wallace é traído por Sir John de Menteith. O olhar do guerreiro perde o brilho, uma lágrima improvável escorre, e ele desaba ao reconhecer o rosto do cavaleiro que o entregou aos ingleses.

Foi assim, em mais de uma ocasião, quando depositei confiança extraordinária em pessoas do meu círculo. E, como se não bastasse, essas escolhas comprometeram amizades verdadeiras — que, por falta de atenção ou sensibilidade, não souberam me proteger.

Tio Mário se foi. Não deixou fotos, nem lembranças materiais. Mas me legou palavras e reflexões que se tornaram ferramentas para lidar com o cotidiano — como um bom jogador que conhece o campo e o adversário.

Salomão, o filho de Davi, já havia percebido isso e deixou o aviso: “Não há nada novo debaixo do Sol. O que foi, é. E o que é, será. No fim, tudo é vaidade.”

E o homem? O homem é falível. É egoísta, manipulador, cobiçoso. É capaz de sorrir enquanto cava a cova do outro. E ainda assim, é com ele que precisamos aprender a viver — separando, dia após dia, o joio do trigo.

Reflexão oriunda dos pensamentos do Rei Salomão:

Salomão, filho de Davi, escreveu que “tudo é vaidade e correr atrás do vento”; uma frase que ecoa como

um sussuroro nas noites em que a alma pesa.

Ele viu riquezas, sabedoria, poder... e ainda assim concluiu que a vida é cheia de incertezas,

que o coração humano é instável,

e que até os mais sábios tropeçam.

Talvez a grande sabedoria não esteja em evitar o joio, mas em aprender a reconhecê-lo

sem perder a capacidade de plantar trigo. Porque, como Salomão também disse,

“há tempo de chorar e tempo de rir, tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar.”

E nesse vai e vem da vida, o que nos resta é cultivar discernimento e

nunca deixar que a dor nos torne estéreis.



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