Ô cafezinho cheiroso!
Minha experiência com o café sempre se seguiu como um ritual. Tudo começava assim: água para ferver na chaleira, e o ponto exato para colocar as quatro colheres de café era quando se podia notar o alumínio quase querendo derreter. Era ali, sem dúvida alguma, que se colocavam, uma a uma, as boas colheres bem cheias de café.
O açúcar vinha em seguida, para dar aquele sabor e quebrar o amargor do bruto. A água continuava na fervura… vapor subindo, mexendo constantemente, até parecer que tudo havia se tornado uma única porção.
O coador servia para separar o que se obteve dessa mistura, deixando apenas aquele “ponche” quente, exalando um cheiro característico. Não tinha como não saber: havia um olhar diferente nas pessoas próximas à minha casa. E sempre se ouvia, com carinho e uma pontinha de esperança de ser convidada para uma xícara: “— Ô cafezinho cheiroso…”
Naquele momento, se fosse possível prestar atenção em outro cheiro que surgia como uma dupla sertaneja inseparável, era o dos famosos bolinhos de chuva da minha mãe. Estimulante e reconfortante, o aroma vinha junto ao som dos bolinhos estalando na frigideira, sendo recolhidos um a um com a concha.
Ela os colocava cuidadosamente em uma forma coberta com papel, para absorver o óleo, e então os pincelava com canela e açúcar. Minha mãe demonstrava total controle na relação entre os ingredientes, padronizando o sabor com precisão e carinho.
Em face da aproximação dos vizinhos, ela, com um sorriso generoso e um olhar de quem sabe o valor de uma boa etiqueta, já se adiantava. Sem precisar de convite formal, estendia a mão com a xícara fumegante e oferecia um bolinho recém-pincelado com açúcar e canela. Minha mãe gostava de ver os olhos dos amigos brilhando e tentando esfriar o bolinho mordido dentro da boca!!! Ela se ria com carinho.
Era como se aquele gesto simples carregasse séculos de tradição; o café forte, o bolinho quente e a camada de canela, o papel absorvendo o excesso, e o carinho transbordando em cada detalhe. Os vizinhos sabiam: ali não se servia apenas um bom cafezinho, servia-se afeto.
Bons tempos aqueles!
Comentários
Postar um comentário