Aliança partida: O preço do capricho!
A rusga foi pequena, quase imperceptível, mas deixou o ar pesado, como se a atmosfera tivesse mudado de cor. Por dentro ela era somente consternação e vingança.
Ela não hesitou. Sabia que o risco era real, mas o desejo de romper o silêncio era maior. Vestiu-se com precisão: o tecido abraçava seu corpo como se tivesse sido moldado por mãos eruditas. No closet, seus olhos pousaram sobre os sapatos Louis XV. Pretos? Vermelhos. Como sangue frio mas fresco.
O batom da mesma cor, parecia gritar o que ela não ousava dizer. O espelho não refletia apenas a sua imagem (ele parecia conspirar com ela), ele era um com ela em beleza e intenção. Um sorriso discreto surgiu. Não de alegria, mas de poder.
Saiu sem olhar para trás. O local do encontro era distante, quase clandestino. O carro já a esperava. Discreto, com os vidros escurecidos. A porta se abriu como se soubesse o momento exato.
Ela entrou. Um suspiro. Um sorriso no canto dos lábios. — Cheguei!!!
As mãos dele tocaram seu rosto com uma delicadeza que contrastava com a tensão no ar. O beijo veio lento, quase silencioso. Mas dizia tudo: — Você veio. E agora, nada mais importa.
O carro seguia em silêncio, cortando a noite como uma lâmina. Ela olhava pela janela, mas não via nada. Só sentia. O toque dele ainda ardia em sua ela, mas algo dentro dela começava a se contorcer. Seria tesão? Seria medo? Um incômodo sutil, como se a sua alma estivesse tentando falar.
O lugar era discreto, envolto por sombras e promessas. Lá dentro, o ambiente exalava desejo; velas, vinho, olhares que queimavam. Mas no meio da dança dos corpos e dos sussurros, ela viu. Viu o reflexo de si mesma num espelho de teto e não se reconheceu.
A lembrança do outro (do verdadeiro) invadiu sua mente como um perfume familiar. O toque das mãos que a conheciam sem precisar explorar. O olhar que a despia sem malícia, só com amor, agora olhava para ela distorcido no espelho.
E então, a aliança. Não a que estava em seu dedo anular, mas a que pulsava em sua memória. A promessa constante e silenciosa feita em gestos e em dias comuns.
Ela havia traído aquilo. Não por amor, mas por capricho. E, o arrependimento veio como um golpe seco. Ela se afastou como se o chão tivesse ficado congelante. O homem “dentro” dela tentou buscá-la em vão. Ela o repeliu bruscamente.
— Me desculpe. (Sem saber se falava com ele ou com o vazio que envolvia sua mente). Saiu sem despedida. Sem explicações.
A noite parecia mais escura agora. E o vermelho nos lábios, antes símbolo de poder, parecia gritar vergonha!
Ela voltou naquela noite como quem retorna de um sonho ou de uma tragédia. O batom havia sido apagado pelos fluidos e pelo arrependimento. O vestido, agora, parecia pesado demais.
Ele estava lá. Sentado à mesa, lendo Kafka. A luz clara da sala criava sombras suaves em seu rosto. Ele gostava desse ambiente elaborado.
Ela entrou devagar, esperando um olhar, uma pergunta, uma cobrança. Mas nada veio.
— Oi — disse, quase num sussurro.
Ele levantou os olhos, sorriu com gentileza.
— Oi! E voltou à leitura bem calmamente.
Ela sentiu um frio estranho. Não no corpo, mas na alma.
Nos dias seguintes, tudo parecia igual. Os gestos, os horários, os rituais. Mas havia algo ausente. Ele continuava presente, mas levemente distante. O toque era leve demais. O beijo, apesar de intenso, se confundia num misto de frieza e automatismo. Mas ela não sabia. Não sabia que ele havia percebido.
Que naquela noite, o perfume diferente se misturou ao olhar perdido. O atraso sutil havia desenhado uma verdade silenciosa. Ele não a confrontou. Não perguntou nada. Mas algo dentro dele se fechou. O amor antes quente e pulsante, agora havia se amornado.
Ele a observava com ternura, mas sem uma verdadeira entrega. Passou a dissimular e incorporou um personagem indefinido. Mas sim, ele estava representando. E ela, sem perceber, continuava tentando reacender o que já não queimava.
Ele não era silencioso e por isso ela estava confusa. Mas o silêncio elaborado tinha como cúmplices o tempo e, ele não a odiava.
O que ele sentia não era raiva, nem desprezo. Era algo mais frio, mais calculado. Um tipo de anestesia emocional que ele mesmo havia escolhido. A dor quando chegou foi intensa, mas ele não gritou. Não chorou. Apenas a acomodou num canto da alma e começou a moldá-la em silêncio.
Continuava carnívoro, mas não por desejo. Por pura defesa. Ela ainda recebia seus cuidados: o telefonema, as caronas para casa, os doces e mimos; o sorriso leve aos olhares cruzados. Mas tudo era ensaiado. Ele não queria puni-la. E também não queria que ela soubesse que ele sabia. Ele queria tão somente se afastar sem deixar quaisquer rastros de mágoas.
Dia após dia, o amor que antes o movia foi se tornando memória e se juntava às outras tantas decepções. E ela, “sem perceber”, continuava vivendo ao lado de um homem que já não estava ali.
Quando ele partisse (e ele sabia que partiria) não haveria acusações. Nem arrependimentos. Apenas o silêncio. E uma ausência tão bem construída que pareceria natural.
E ela iria contar tão somente com o eterno benefício da dúvida.
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