Cavando a própria sepultura.

 Ela nunca teve medo das consequências. Talvez porque, desde cedo, aprendeu de sua mãe que o amor não vinha com garantias; e que o afeto, quando oferecido demais, virava moeda barata.

Então ela começou a cobrar. Não em dinheiro mas em atenção. Em promessas. Em corpos. 

Enganou homens que se apaixonaram por ela com sinceridade. Fez juras que nunca pretendia cumprir. Ofereceu ternura como isca, e depois desaparecia, deixando apenas o eco de um “foi especial para mim também”.

Hoje, com meio século, ela não se arrepende. Não porque não sente culpa, mas porque já se acostumou com o papel. A atriz virou produtora: organiza seus “contatinhos” como quem monta um elenco reserva. Tem nomes salvos como emojis, apelidos, datas. Sabe quem responde rápido, quem manda flores, quem chora. Ela não pode perder o foco.

E se expõe. Não por descuido, mas por gosto. Seu olhar sempre furtivo e eventual. Faz questão de deixar rastros, de provocar ciúmes, de ser vista como uma mulher livre, mesmo que a liberdade seja só uma máscara para cobrir seu imenso vazio.

No fundo, ela ainda busca o mesmo de sempre: Um gesto que não precise ser comprado. Um olhar que não precisa ser manipulado. Um amor que não precisa ser enganado para permanecer. Mas ficou promíscua demais.

Mas enquanto não encontra, ela segue  o roteiro, uma, duas, três, quatro… não importa. Abre as cortinas, escolhe a trilha sonora, e entra em cena. Porque no palco da vida, ela aprendeu: É melhor ser vilã com platéia do que mocinha esquecida nos bastidores. Mesmo que tenha que receber eventualmente agressões físicas e o desprezo.

Tem plena convicção que irá terminar sozinha e lembrada nas mesas dos risos e do consumo sem valor algum. Sabe que é desprezível por ser vulgar, mas acredita que quantos menos souberem desse desvio de caráter, muitos mais poderá enganar até que termine sozinha num túmulo barato, numa sepultura que ela mesma cavou por todos esses anos.








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