Aos brados do Tio Mário.
“ Você tem que prestar atenção nos sinais”, bradou meu Tio Mário, com aquele tom que misturava conselho e advertência. Ele sempre dizia isso, com quem lê o mundo com olhos treinados; olhos de quem já viu muita coisa dar errado por falta de atenção.
Naquela semana, os sinais estavam por toda parte. No trabalho, um colega tecnico vinha agindo com descaso. Instalava equipamentos de qualquer jeito, ignorava padrões, e parecia alheio ao impacto que sua negligência causava. O problema não era só técnico, era ético. E a ética, como dizia Tio Mário, não é acessório: é o alicerce.
A equipe, entre resmungos e tentativas de diálogo, decidiu não reportar o problema. “Somos amigos”, diziam. “Vamos resolver entre nós”. Mas amizade não pode ser desculpa para omissão coletiva. E a omissão, como um fio desencapado, um dia vai dar choque.
Sem agendamento, o gestor apareceu de surpresa, sob o pretexto de acompanhar uma apresentação dos novos equipamentos que foram montados e instalados por esse colega. E tudo foi sendo descoberto como a um meteoro que cai por sobre uma vila: nada funcionava. O constrangimento foi total, mas a responsabilidade tinha nome.
Naquela noite fui visitar meu Tio Mário e lhe contei sobre o que havia acontecido la na empresa. Ele ouviu tudo em silêncio, como se estivesse mastigando cada palavra antes de engolir.
Depois de algum tempo, disparou:
— Ética, meu sobrinho, é como freio de carro. Se não funcionar, não importa o motor que você tem; vai dar acidente. E tem gente que acha que denunciar é traição. Mas traição mesmo é deixar o projeto afundar por medo de parecer egoísta, insensível ou injusto. A ouvidoria existe pra isso; para ser o caminho discreto entre o problema e a solução. E, ela só existe para salvaguardar todos aqueles que precisam se proteger e proteger algo maior. E isso tanto vale para vida profissional quanto para vida pessoal. Tem gente que a gente precisa colocar no lugar certo, não por maldade, mas por respeito ao que é certo. Respeito aos princípios e o mais importante, respeito à nossa própria vida.
Fiquei ali, em silêncio. Um silêncio desconfortável, como quem vê os sinais gritando com mais clareza.
E de alguma forma a reflexão ja era intrinseca.
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