Degraus invisiveis

O trem chegou à estação no horário costumeiro. A pressa era o pensamento comum entre os passageiros. Antes mesmo de parar, já havia uma aglomeração nas portas; tanto de  quem queria sair quanto de quem aguardava para entrar. 

O truque era posicionar-se no centro, entender o timing da abertura das portas e precipitar o primeiro passo. Os outros fariam o mesmo. Mas quase sempre havia confusão: os que estavam do lado de fora raramente esperavam os de dentro saírem. O resultado era o descontrole; lembrando o início de uma corrida cheia de carros, onde um deles perdia o controle e batia no outro e começava o engavetamento.


Chegava a dar medo a ideia da porta se fechar antes que todos passassem. Entretanto, alguém garantiu que existem sensores de presença nelas. Que bom!!!


Naquele empurra-empurra entre liberdade e “encarceramento”, as direções se alternavam. Havia os atrasados, os desordenados, os  que tropeçam nos próprios pés e iam ao chão como quem recebe um abraço apertado; só que sem afeto.


Foi exatamente isso que aconteceu naquele dia. Enquanto eu seguia pelo caminho de saída da estação, duas mulheres vieram esbaforidas subindo as escadas rolantes, que estavam desligadas. Saltavam os degraus, um, dois de cada vez com urgência e destreza. Ou talvez já fosse um hábito. Não deu tempo de saber. A primeira caiu ja no final da escada. A segunda veio por cima dela. Mais à frente, o bip sonoro anunciava o fechamento das portas. A viagem seguiria sem elas.


A primeira tentava se levantar com seus olhos fixos na porta do trem, como se desejasse um milagre para não perdê-lo. A segunda, tentando não rolar escada abaixo. Eu vi tudo de perto. Ao meu lado, um homem também observava. Olhou nos meus olhos e disparou:

— Eu não ajudo. Vai que uma mulher dessas diz que eu “toquei” nela? Minha vida acabou. Segui em silêncio e de alguma forma eu também pensava o mesmo, mas aquela frase ficou comigo. Pensei muito no que ele disse. E, com o tempo, entendi: há uma insegurança real que muitos homens carregam nos dias de hoje: o receio de que um gesto de ajuda possa ser mal interpretado. Que uma simples gentileza vire uma acusação. Que cuidado se transforme em risco. 

Mas também pensei naquelas mulheres. Na queda. No susto. Na dor e na frustração. E, me perguntei: será que a empatia está sendo vencida pela pressa? Ou pelo medo?

Vivemos em uma cidade onde degraus são invisiveis. Não os que subimos com os pés, mas os que exigem coragem para parar, olhar e estender a mão. E talvez seja isso que esteja faltando: a pausa que antecede o gesto. O tempo que permite o cuidado. A confiança que sustenta a empatia.

Naquele dia, ninguém ajudou. Mas talvez, amanhã, alguém  pare e reveja essa postura. E escolha subir o degrau certo.


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