O silêncio de uma consciência livre.

 


Em tempo de férias, meu tio Mário tinha o estranho hábito de me provocar com palavras que, vez ou outra, pareciam estacas cravadas na garganta. Seus conselhos vinham sem filtro, mas com uma intenção nobre: provocar reflexão. Ainda me lembro da angústia de imaginar um futuro (vago), mas inevitável em que eu me veria no centro de uma equação existencial difícil de resolver sem ele.


O curioso é que o futuro nessas previsões, não chega aos poucos: ele salta. E, quando chega, é como se algo sombrio começasse a se desenhar. Vivemos cercados de turbulências. Tudo à nossa volta parece esfriar: relações, intenções, sentimentos. O mundo se tornou competitivo, apressado, dominado por um bem-estar cínico que corrói por dentro. E esse cinismo, tão comum hoje, se alimenta da vontade egoísta de ser sempre o mais certo, o mais sábio, o mais superior. Intromete-se nos sonhos alheios, quase sempre pelo pior motivo.


E sim, existe um nome para isso. Nada nobre, admito, mas que se encaixa perfeitamente: vaidade. Uma vaidade que em alguns se expressa pelo prazer cruel de ver o outro cabisbaixo. Mas há também aqueles que caminham no sentido oposto; que torcem sinceramente pelo sucesso do próximo. Que vibram com a felicidade alheia, que ofertam estímulos, que não se envergonham de cuidar.


Foi justamente sobre isso que tio Mário me advertiu, numa conversa que carrego até hoje.


— Sobrinho, -- ele disse — tem gente que nunca estará preparada para doar-se. E, talvez por isso mesmo, também não saberá receber. Sabendo disso, no fim de cada dia, revise sua própria estratégia de viver. Entenda que uma leve mudança de comportamento pode agregar humanidade aos seus gestos futuros. Mesmo quando sentir que o último golpe seria merecido, respire. Reaja com paciência. Com benignidade. Isso não é fraqueza; é liberdade emocional travestida de maturidade.


A verdade é que o mundo precisa mais do que nunca de pessoas que foram quebradas, julgadas, rejeitadas, mas que assistiram ao desprezo sem perder o senso de gentileza. Pessoas que, mesmo esgotadas pela soberba dos outros e sua terrível empáfia, escolheram não replicar a arrogância. Que, ainda que tivessem razão, optaram por não sentenciar ninguém.


Li certa vez o escritor Oscar Wilde e ele dizia que “a maioria das pessoas é outra pessoa. Seus pensamentos são as opiniões de alguém, suas vidas uma imitação, suas paixões uma citação”. Talvez por isso a amizade verdadeira seja tão rara. Ela exige autenticidade. Exige coragem para dizer a verdade com afeto. Exige aquele tipo de lealdade que, se precisar ferir, fere de frente com honestidade e nunca por vaidade.


Hoje, de onde estou; mais velho e talvez mais lúcido, percebi o valor de tudo isso. Já estive do lado de quem quis julgar e de quem por alguma motivação questionável, julgou. E fui alvo de julgamentos versados na emoção e na falta de tato dos meus interlocutores. Já desejei devolver dores com a “mesma moeda”, mas também me calei quando tive todo o direito de falar. Com o tempo a gente aprende que não é tão somente sobre colheita “em dobro” daquilo que se plantou, como dizem os mercadores da espiritualidade mercenária. É sobre plantar mesmo  quando não há plena certeza da colheita. É sobre estar em paz com o que você decide ser.


No fim, a maior riqueza talvez seja ter a consciência leve. Desobstruída. Livre dos remorsos, de fingimentos, de inveja pequenas e de orgulhos pesados demais para carregar na alma.


E entre livros velhos, alguns adereços esquecidos, gargalhadas resgatadas, e muito, muito rock’n roll, percebi que o grande tesouro é se sentir livre. Livre de verdade.


Livre para doar. Livre inclusive para não aceitar. Livre para perguntar o porquê? Livre para não responder nada. Livre para entrar e para sair. Livre para desistir no meio do caminho e não olhar para trás. Livre para ir embora.


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