Quando "santa esmeralda" quebrou seus discos.

 

Ela chegou com o semblante carregado, como quem trazia uma tempestade nos olhos. Passou pela sala sem olhar para ninguém, cruzou a porta do quarto e iniciou uma busca que mais parecia um descarrilamento. Objetos voavam como se estivessem sendo expulsos de um lugar ao qual nunca pertenceram. Livros, roupas, sapatos; nada escapava dos arremessos e dos chutes.

De onde estávamos, a preocupação deixou de ser feita de risos e passou a se expressar em olhares de dúvida e receio.

Seus passos, agora mais pesados, refizeram o trajeto até o quintal. Demorei um pouco até conseguir me levantar e ir averiguar o motivo de tantos rompantes. Lá estava ela, escolhendo um a um seus discos de vinil (os long plays) e partindo-os ao meio sem qualquer cerimônia. Imprimia força, retorcendo as capas com as mãos até dobrá-las, como parte de si estivesse sendo chicoteada.

Seus discos prediletos!!!

Fiquei perplexo. Coube-me fazer uma pergunta legítima:

— Por que você está fazendo isso? — Fiz uma aposta e perdi. — Aposta? Mas que tipo de aposta foi essa? — Apostei que a música do Santa Esmeralda tinha menos de 16 minutos. O vendedor da loja disse que não  tinha. Daí eu disse que, se tivesse mais , eu quebraria todos os meus discos… — Mas você nem conhece esse homem. Por que precisava cumprir isso? Perguntei de forma pacificadora, mas provocativa.

Não esperei resposta. Apenas entrei em casa. Tranquilizei meu pai e seguimos assistindo ao filme.

Achei tudo um exagero desnecessário. A aposta, além de tendenciosa, induzia ao erro. Mas se ela interpretou de outra forma… fazer o quê?

Algum tempo depois, nas férias do colégio, ela recebeu um convite para passar duas semanas na casa do padrinho, num bairro nobre da cidade. Ficou por lá e, ao retornar, parecia ter respirado os ares da camada alta. Adotou pequenos hábitos adquiridos e, sem perceber, profanou a si mesma ao tecer um comentário injusto à vizinha que estava na varanda, observando sua chegada:

— Esse povo não tem vergonha de ficar olhando a vida alheia. — Quando terminar de chegar, devolve meu short que você levou sem pedir… — falei com calma, no exato momento em que ela discursava sobre ética e bons costumes para nosso pai.

Confesso que aquilo me deixou desconfortável. Mas me pareceu oportuno lembrá-la de suas responsabilidades; seja como protagonista ou como espectadora. Alguém que não espera ser advertido, precisa espontaneamente buscar manter suas obrigações em ordem.

Minhas reflexões sobre esse episódio:

A família é, por excelência, o primeiro campo de treinamento para a arte de gerir conflitos, e, por vezes, confrontos. É nesse ambiente que se aprende a reconhecer limites, a negociar diferenças e a lidar com o desconforto sem romper laços. Mais do que um refúgio, a casa pode ser um laboratório emocional, onde se desenvolve o senso crítico necessário para enfrentar as armadilhas que o mundo oferece fora dali.

Mas isso só vale a pena se houver uma base sólida; a certeza do amor e do acolhimento. Quando esses pilares são internalizados, o confronto deixa de ser ameaça e passa a ser oportunidade. A família, então, não é apenas um lugar de convivência, é um espaço de formação ética, emocional e afetiva.


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