"O SILÊNCIO DE FABINHO"

 Fabinho não desapareceu. Ele apenas parou de tentar ser visto.


Durante anos, sua presença foi intensa — uma pessoa de palavras acolhedoras, gestos generosos e uma inquietação por equilíbrio que ninguém sabia nomear. Até que um dia sem aviso, ele colapsou. Não foi um grito, nem escândalo. Foi um silêncio. Um afastamento. Um sumiço que parecia escolha, mas era desespero.


Enquanto Fabinho lutava contra o peso do pânico, da presença cada vez mais intensa dos sintomas do descontrole emocional e da inclinação ao lançar-se ou não no  abismo, o mundo ao redor seguia com suas certeza. E com seus julgamentos sempre pincelados com altiva preocupação e bondade.

A conversa na copa


No ambiente interno do  seu antigo emprego, Marta e Gustavo (nomes fictícios) falavam sobre Fabinho.


— Ele se afastou de todo mundo — disse Marta, mexendo o cappuccino.  — Eu tentei ajudar — respondeu Gustavo. — Mas ele não quer. — É como dizem, né? Não dá para ajudar quem não quer ser ajudado. Eu ligo para ele mas ele nunca atende — disse, dando com os ombros.

Eles não sabiam que, naquela mesma manhã, Fabinho havia passado horas tentando levantar da cama. Que cada respiração parecia uma batalha. Que ele havia escrito e apagado uma mensagem para Marta dezenas de vezes. Sua noite ainda não havia terminado e ele sem dormir, tentava se agarrar a qualquer coisa que pudesse para manter-se de pé.

Do alto do viaduto

Naquela manhã, enquanto a vida iniciava sua melodia com o som dos motores e o canto dos galos, Fabinho por não ter dormido há pelos menos 4 dias e 4 noites, acrescentava a essa conta mais uma noite. Viu o dia amanhecer brigando com seus pensamentos e, ele estava perdendo. Foi difícil para o transeunte convencê-lo a não se jogar do parapeito, mas como um milagre inesperado, ele desceu e aceitou com gratidão suas palavras.

Na sala de espera do Posto de Saúde, a atendente anunciou sua vez: Fabinho! Ele de pronto se pôs de pé e iniciou seus passos em direção à sala do médico; Drº Vinicius. Ele era bem menor que Fabinho. Lhe tocou o ombro com um afago e disparou: — Fabinho, boa tarde! Como é que você está se sentindo?

Foi bem rápida a retração do seu corpo. Antes do doutor terminar a pergunta, Fabinho estava completamente desmoronado. Afinal, ali, depois de tantos meses, ele se deu conta de que, até aquele momento, ninguém havia lhe feito aquele pergunta. Como afinal ele estava se sentindo.

A reunião de família.


Na casa da tia Katrina, o assunto voltou. Estavam comemorando o aniversário dela e parte da família e alguns amigos se reuniram.

— Fabinho perdeu aquele ótimo emprego. E o curso que ele queria tanto - comentou um dos primos da filha da tia Katrina. — Ele sempre foi meio instável — disse sua filha. — A gente tentou, mas ele se fechou. É difícil lidar com gente que não se ajuda — completou ela. Seu tio interrompeu o diálogo e asseverou: — De todos que estão aqui presentes, você é a única pessoa que pode fazer alguma coisa por ele. Somente você pode fazer isso.

Ela que dizia amá-lo, agora falava com uma amiga.

— Ele era intenso demais. Um dia estava bem, no outro sumia. — Você tentou, né? — Tentei. Mas ele não deixava. Não dá para ajudar quem não quer ser ajudado.

Fabinho em sua casa, encarava o teto do quarto. O curso havia sido um sonho. Mas o pânico o impedia de sair. O emprego, uma chance que ele viu ser retirada da sua vida, enquanto ele buscava  acalmar-se e não pensar nas tantas outras  coisas que foram comprometidas. Sua mente não parava de buscar respostas e elas não vinham. Tinha impulsos eventuais de resistência, de motivação, mas a pancada tinha sido certeira e afetou sua honra; coisa importante e pessoal demais para que terceiros pudessem medir.

Fabinho se lembrava dela como o último abraço antes do abismo completo. Ele havia pedido ajuda. Não com palavras, mas com olhos desesperados. Ela não viu. Ou não tinha capacidade de ver(?). Como algumas pessoas que apenas existem sem ter a sensibilidade para perceber o que está acontecendo, ela também tinha alguma limitação e falta de empatia.

O outro lado


Enquanto todos falavam sobre Fabinho, ele tentava se reconstruir. Tentava entender por que o amor não o acolheu. Por que a dor era invisível. Por que o silêncio era mais seguro que qualquer conversa. Nem sequer ele mesmo poderia ter sabido sobre si, o tamanho da vergonha que não conseguiria suportar. Faltava-lhe uma família verdadeira que não o julgasse com os “ses” tão cruéis e peçonhentos. Faltava o respeito que deveria ser égide para a certeza do acolhimento. Faltava a gratidão verdadeira por quem conviveu com ele por alguns punhados de anos.


Ele escrevia em cadernos. Chorava em silêncio. Pensava em desistir. Mas algo — talvez a memória de quem ele foi — o fazia continuar. Claro que sua alma já estava mendigando. Ele já queria mendigar. 


Não era força. Era sobrevivência.


Amigos:


— Fez o quê? Como assim? — foram as primeiras palavras de Pablo. As palavras que se seguiram foram severas sob a ótica do quê ele já sabia. “Sempre disse para você mudar daí. As pessoas são vazias e não tem a capacidade de oferecer nada além do que elas conhecem: suspeitas, críticas, abandono, deboche e sinceridade”.


P.H, estava envolvido com alguns problemas familiares e a iminente perda do seu patriarca. Mas ele não julgou Fabinho por seu silêncio. Anos depois ele disse que compreendia antes de qualquer justificativa. Suas conversas eram sempre baseadas na “frequência espiritual”, mesmo que houvesse algum distanciamento, ambos já haviam construído uma boa amizade.


Epílogo:

Anos depois, Fabinho reapareceu. Não  como antes. Mais calado. Mas cauteloso. Mas vivo.


Alguns ainda diziam: — Ele sumiu porque quis: — Ele nunca quis ajuda.


Mas Fabinho sabia. Ele não quis desaparecer. Ele só não teve onde ficar sem o peso das fórmulas e dos resultados. Sem as críticas que ainda insistiam em permanecer lá no passado, no hecatombe. Fabinho não cansava de repetir para si:” Se as pessoas não puderem amadurecer, quem tem que amadurecer sou eu.”

Fabinho aprendeu a  proteger dos outros  suas amizades mais importantes e tem dado  muito certo. Ele reveza e está sempre numa alta frequência de paz e equilíbrio.

Fabinho agora entende que dividir o pão muitas vezes é dividir o tempo, a escuta, o silêncio e a esperança. E que, ao fazer isso, ele não apenas sobrevive — ele frutifica.


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