O choque que as escolhas causam.
Era uma manhã comum, dessas em que o sol parece não ter pressa de aparecer. Eu caminhava pela rua quando vi o inesperado: um caminhão de mudança acelerou numa curva e deixou para trás uma trilha de objetos esquecidos.
Caixas, sacolas, pedaços de vida embalados às pressas. E eu, curioso como sempre, fui lá ver.
Peguei uma caixa de madeira, daquelas antigas, com cheiro de "coisa guardada". Dentro, um universo de miçangas, botões, pequenas jóias sem brilho — tudo misturado como se tivesse sido despejado de uma gaveta de infância. Nada parecia ter valor, mas tudo parecia fazer parte de uma história.
Foi então que encontrei outra caixa, mais pesada. E dentro dela, protegido como um segredo, havia um caderno de espiral. Na capa, em letras coloridas e brilhantes, lia-se: Meu Diário! — com exclamação e tudo. Era claro, ao menos para mim, que pertencia a uma menina. Talvez ainda criança, talvez já crescida. Mas alguém que confiava seus pensamentos ao papel.
Fiquei ali, parado, com o diário nas mãos. Olhei frente, o verso, as laterais. O caderno tinha textura de confidência. E então veio a duvida: abri ou não abrir?
Era como segurar um mapa de tesouro. Não um tesouro de ouro, mas de sentimentos. De medos, sonhos, paixões. E eu, pirata de ocasião, hesitei. — Não leia. (me gritou a consciência.). Mas como devolver sem saber a quem pertence?
Talvez houvesse um número de telefone. Uma pista, talvez. E então, com o cuidado de quem toca algo sagrado, decidi procurar apenas isso: um nome, um contato, uma chance de devolver à autora o que lhe escapou pelas curvas da cidade.
Porque há coisas que não nos pertencem. E há histórias que, mesmo tentadoras, devem permanecer onde nasceram: no coração de quem as escreveu.
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