Uma criança a cada 60 minutos.
Um criança a cada 60 minutos
“No Brasil, a cada 60 minutos, uma criança ou um adolescente morre por arma de fogo.” Li isso muito depois daquele dia, mas a estatística já havia pousado na minha rua, feito sombra no nosso “quadradão”, bem no fim da rua.
A nossa rua era um retângulo comprido; 40 lotes alinhados, 10 metros de frente por 36 de fundo. Sabíamos disso da escola. Tínhamos orgulho em saber. Tudo ali tinha uma medida, até o espaço onde a infância se alternava em frente às casas com suas calçadas.
Sempre nos reuniámos no quadradão, onde os "caras grandes" jogavam golzinho aos fins de semana e, com sorte, a gente ganhava um cantinho pra brincar também.
Tínhamos patinete e cada qual construia a sua sem entender de engenharia mecânica, mas motivados para poder percorrer os quarteirões com elas.
Naquele sábado de 1984, eu fiquei em casa. Era começo da tarde, o sol colava nos vidros da janela, e na televisão, canal 2, começava o Super Pop Vídeos. Eu gostava daquele programa. Gostava de ver as músicas e os artistas dançando como se nada pudesse acontecer.
O que aconteceu veio num som seco, oco, de bombinha de festa junina, mas daquelas bem estridentes. Mas naquele momento não havia festa. Levantei e fui até a porta. Dois rapazes passavam rápido, com olhares que lançavam perguntas para trás. Um deles enfiava um revólver por baixo da camiseta. A camiseta estava cobrindo a peça quando puder ver uma expressão de ira e satisfação em seu rosto.
Do lado de fora, as brincadeiras tinham parado. Vi o irmão do Tôin, o Luciano, se lançar na direção dos dois. Pulei o muro, alcancei-o, e o segurei como se meus braços pudessem segurá-lo também da dor. Ele chorava, se debatia, queria ir atrás. Assim pude saber o que havia acontecido. “Atiraram no Tóin! Ele estava sentado e atiraram nele!!!”
Logo chegaram os adultos. Wander e Waldmir o colocaram no Chevette marrom do Seu Pedro. Saíram em disparada, sentido hospital, deixando um rastro de esperança e levantando poeira.
O pai do Tôin chegou logo depois, vindo de uma rua ao lado. Ele andava de um lado pro outro com as duas mãos na cabeça. Inconsolável, mas firme como haviam de ser os pais nesta época. À espera. Como se andando pudesse encontrar uma notícia melhor do que a que lhe havia chegado.
Mas a notícia chegou. Sempre chega. E antes mesmo de ser dita, já estava no rosto do Wander. Era o tipo de silêncio que só a tragédia sabe fazer. Antes de chegar à Emergência do Hospital Regional, Tóin deu seu último suspiro nos braços de Wander.
Choro. Gritos. O chão sumindo sob os pés de Dona Jinu, a mãe. A rua inteira fora de casa. A infância encostada nos muros, calada. Os adultos buscando consolar-se.
Naquela noite, eu tinha uma festa com os amigos da escola. Meu pai, homem do tempo antigo, me disse seco:
— Você só vai se alguém vier te buscar e trazer.
Meu amigo Sérgio se ofereceu e pude ir. Dancei. Disfarcei a tristeza e a saudade. Entre uma conversa e outra, as mães dos meus amigos buscavam saber por mim o que havia acontecido…
Mas quando voltei, tarde da noite, a casa estava com a porta aberta e a luz acesa. Meu pai estava lá, em silêncio, esperando.
Apagou a luz só depois que eu entrei.
Foi ali, na luz daquela porta, que entendi o que é o medo em forma de cuidado. E o amor em forma de silêncio.
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