Quando a infância virava amor!
“Atirei o pau no gato-tô, mas o gatô-tô não morreu! Dona Chica-ca admirou-se-se do berrô, do berrô que o gato deu!”
A gente cantava e ria alto com essas músicas todos os dias, reunidos na rua, bem em frente às nossas casas. Podíamos gritar, correr, se jogar no chão. De vez em quando, escapava até um palavrão de valor duvidoso; o que causava um silêncio imediato, porque palavrão era coisa proibida. Nossos pais ou os pais dos amigos jamais poderiam ouvir tamanha rebeldia.
Tudo isso acontecia sempre à noite, entre 19h e 20h. Era o horário sagrado em que todos nós, devidamente autorizados, podíamos brincar enquanto os adultos se rendiam às suas novelas favoritas.
Naquela rua, os meninos mais velhos , os “caras grandes”, como chamávamos aqueles que já tinham 16, 18 anos ou mais, dominavam o pedaço. Impunham respeito com seus tamanhos e vozes grossas. Nós, os menores, nos limitávamos a admirar (e temer) essa força.
Com o tempo, a rua ganhou uma divisão silenciosa, daquelas que ninguém comenta, mas todo mundo sente. Tudo por causa de um certo despertar: o da paixão.
A gente percebeu que as meninas mais bonitas da rua sempre paravam nos arredores do lote 22, ali moravam a Darlene e a Néia. Mas era no lote 20... ah, o lote 20! Lá estavam a Mirian, a Cláudia, a Gláucia e a Renata. Belíssimas. E, mesmo com tanta beleza, falavam com todos nós, os meninos bagunceiros, aqueles que só arrumavam confusão para provocar reações delas. Ríamos alto só de vê-las emburradas, batendo o pé. Que tolice boa.
No nosso crescimento, tudo foi mudando: a voz engrossava, o jeito de andar se ajustava, o corpo ganhava vigor. Era uma nova camada da vida sendo explorada sem manual de instruções, sem sabedoria, sem rumo, com olhos curiosos.
Naqueles tempos, romance era um mistério. Ninguém nos tinha dito para que servia aquilo, e, para ser sincero, a gente achava era graça em ter nojo das meninas. Elas sempre pareciam conduzir tudo de um jeito mandão, como se soubessem mais do que a gente. E isso, claro, nos irritava… mas também fascinava, de um jeito estranho que a gente ainda não entendia.
Mas algo mudou, e rápido. De repente, começamos a olhar para as meninas com olhos mais atentos. As feições delas tomavam forma, cada uma seguindo a estética da própria família, e como isso era bonito. Ver as meninas arrumadas com seus vestidos, ou desfilando no intervalo das aulas da escola… era desconcertante. A gente sonhava, mesmo sem saber o que fazer com aquilo. Tudo virava segredo entre os garotos: os sentimentos, os pensamentos, o encantamento.
Com o passar dos dias e a chegada das novas exigências escolares, crescer deixou de ser escolha e virou compromisso. Era preciso amadurecer, espelhar-se no pai, entender o mundo. E, do outro lado, as meninas também cresciam, e como cresciam. Tornavam-se ainda mais belas, mais únicas, mais donas de si. Nada daquelas sapecas mandonas do início. Agora, tinham brilho próprio.
Hoje, é uma delícia pensar em tudo isso com olhos de adulto. A gente não percebe as transformações da vida enquanto está dentro delas, só depois, quando para pra lembrar.
Não sei por onde andam Darlene, Cláudia, Renata, Izabel, Gláucia… talvez a vida tenha levado cada uma para bem longe dali. Mas gosto de imaginar que se tornaram tudo aquilo que já prometiam ser: lindas, fortes, únicas. E sei que meus amigos de infância também o são. E isso, pra mim, faz toda a diferença, como uma marca invisível que carrego com gratidão.
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