A criança que apenas o tempo poderá punir
Normalmente acontecia numa sexta-feira, depois das aulas do segundo grau, e das famosas e intensas gargalhadas dissipadas pelo vento. Noite a dentro só se pensava nisso; uma roupa bonita e bem ajustada. Afinal barriga grande ninguém tinha (ê saudade!). Éramos todos sarados de marre-de-si! Enfim, o desejo que se avolumava era tão perceptível que todos da turma sempre indagavam: E ai, vai hoje? O sim era unânime. E iámos mesmo! Roupa passada, perfume, uns trocados no bolso e muita, muita disposição pra se divertir.
Naquele período o que mais nos excitava era o desafio de poder se achegar a menina mais bonita do colegio. E acreditem, prá nós, beleza ainda era algo indefinivel, um mixto de hormônios com exótico... Se tratava de algo ainda bem particular. E na expectativa do exito, fantasiavamos quase tudo e quase todos: heróis de cinema - no caso, o sucesso da vez eram os filmes de Bruce Lee -, as canções e os singles com coreografias, e nesse tópico, Uh!! Michel Jackson ( que me perdoem os Lady Gagaguistas ), ele mesmo. Tinhamos também os axés, e os pagodes que vinham comendo pelas beiradas... Mas, o que importava era a concretização do sonho de beijar a menina do colégio. Cada sonhador tinha a sua... Éramos puros sonhadores acordados, e já assustados com o horario de retornar cada um pra sua casa. Os pais não perdoavam rebeldia. Dançavamos, e dançavamos! Melodias que ainda hoje prá se ouvir é preciso ser recorrer aos sites de busca... Mas, ainda assim, vale a pena. Desejavamos ser fortes, mas já éramos. Sonhavamos com o primeiro beijo, mas flagrantemente ele ja seria nosso... Sem pressa, ao seu tempo. Uns aos 12, outros aos 15... E os menos afortunados, aos 18... Mas valia a pena cada segundo que se distanciava do momento da descoberta ficava mais intenso e ia ficando melhor. O sonho de amar realmente acontece nessa idade. Os olhos brilham a cada descoberta, a cada excesso, a cada despreparo, a cada fuga... A cada acerto. A paixão começava ainda no sonho... E pela cobiça se tornava real. Ainda hoje procuro aquela sensação que me fazia melhor a cada novidade.
Ainda procuro um sinal que advenha do sexo oposto e a esse eu também me sinta seduzido, mas de onde estou já não funciona mais assim. As respostas imediatas que foram estabelecidas, exigem uma pronta competição primitiva a quaisquer possiveis aproximações femininas: identificação e "abate". E não é de bom tom ser autêntico, "não pega bem ser romântico". Prá romantismo existe o príncipe que surge montado em um cavalo virgo e branco, para ajustar-se às propostas espontâneas que o convivio social exige. O que convence de verdade é a rigidez do membro, e o que ele pode fazer enquanto hirto. E por ai vai... Aquele amor adolescente não vai aparecer mais... E mesmo que ainda se queira ser uma criança, não existe espaço pra uma ingenuidade compativel a esse delirio. No meu caso, o nome era RAS, e a ela meu sonho se seguiu até a oitava série, e mesmo assim quando pude ser homem, ainda era criança demais para perceber que o mais importante entre o agora e o pra sempre é a chance unica de estabelecer um inicio, sem se preocupar se seria pra vida inteira ou por apenas alguns bons, saudosos e indescritíveis instântes... Uhrráh!
Por: Edson Mendonça.
Por: Edson Mendonça.

Bom texto. Acho que todos têm saudades da sua infância, seja das brincadeiras, seja do 1º amor ou das longas conversas e risadas com amigos. Mas o importante é não achar que o passado é sempre melhor que o presente e nunca vai superar o futuro. O "hoje" é o melhor dia. E quanto ao "não pega bem ser romântico",não concordo. Beijos
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